GUIA DA GRIPE – FOLHA DE SÃO PAULO – 16.08.09

QUE BICHO É ESSE?

Especialistas esclarecem 50 dúvidas sobre a pandemia da gripe A (H1N1), que preocupa muito 57% dos brasileiros

1 – Quando essa pandemia vai acabar?
A pandemia terminará quando a maioria da população estiver imunizada, seja porque teve a infecção, seja porque foi vacinada. Assim, o vírus da gripe A (H1N1) se tornará sazonal. As pandemias do passado duraram cerca de três meses e, no Brasil, a pandemia está acontecendo há mais ou menos um mês e meio (quando ela começou a circular sozinha, sem depender de casos novos). Provavelmente, no ano que vem, esse será um vírus comum.

2- Depois de curado, corro o risco de ficar doente novamente ou fico imunizado?
Quem teve contato com o vírus A(H1N1) está provavelmente imunizado contra ele. Mas é possível que o vírus sofra novas modificações, que permitam que ele volte a infectar a mesma pessoa.

3- A gripe A mata mais que a gripe comum?
As duas tem a mesma taxa de letalidade (de 0,4 a 0,5%). Há uma diferença: a gripe sazonal concentra os casos de morte em idosos, enquanto a gripe A está provocando morte em todas as faixas etárias.

4- Se eu pegar o vírus, vou adoecer?
Nem sempre. Parte das pessoas infectadas não desenvolve a doença, mas tem elevação anticorpos.

5- Posso contrair o vírus de alguém que não apresenta sintomas?
Depende. Acredita-se que as pessoas que não desenvolvem a doença não são capazes de transmitir o vírus. No entanto, aquelas que a desenvolvem, começam a transmitir o vírus 24 horas antes do início dos sintomas.

6- Posso pegar comendo carne de porco?
Não. O vírus foi identificado como suíno porque ele contém material genético típico dos vírus que circulam nos porcos. A transmissão da doença entre suínos e humanos aconteceu por meio de secreções respiratórias, e não pelo consumo da carne.

7- Em que a gripe A é diferente das gripes comuns?
Pesquisadores do mundo todo ainda tentam descobrir as principais diferenças. Pesquisas iniciais mostraram que, em seu estágio atual, o agente é bem menos letal do que o de epidemias anteriores de gripe, como a de 1917.

8- A gripe comum pode evoluir para gripe A?
Não, pois elas são provocadas por vírus diferentes.

 

9- Qual o tempo de incubação do vírus?
Em média, varia de dois a cinco dias. A transmissão acontece desde um dia antes dos sintomas até sete dias após a manifestação da doença.

10- Como devo agir se estiver com os sintomas?
Afaste-se de imediato de espaços onde existam outras pessoas (trabalho, escola) e procure um médico de confiança ou as unidades básicas de saúde.

11- Álcool em gel de supermercado tem a mesma eficácia do álcool em gel 70% vendido em farmácias?
Depende. A eficácia do álcool em gel como antisséptico acontece na concentração entre 60% e 95%. A maioria dos frascos encontrados em supermercados tem a concentração de 48,6%, então é preciso ficar atento na hora de comprar.

12- Se tenho alguma indisposição por causa de outra doença, devo ir ao hospital?
Depende. Em casos de indisposições simples, como viroses, o melhor é evitar o hospital para prevenir um possível contágio da nova gripe. Mas, em casos mais complicados, alguns hospitais têm salas de espera destinadas a pacientes sintomáticos.

13- Fico mais protegido com as máscaras?
Não. O uso é recomendado apenas para os doentes, para evitar a transmissão do vírus. Não existem dados que mostrem que o uso pela pessoa saudável diminua a chance de pegar a infecção. Além disso, a proteção contra o vírus é limitada, pois a máscara comum é feita com um tecido frágil, que permite a passagem de partículas do vírus. E o tecido pode ser danificado pela umidade da própria respiração, cerca de duas horas após o início do uso.

14- Por que devo lavar as mãos com frequência?
Porque o vírus sobrevive até 48 horas fora do organismo. Ao tocar um objeto onde o vírus circula e levar a mão ao nariz, boca ou olhos, pode haver contaminação.

15 – Consigo fortalecer meu sistema imunológico para evitar a gripe?
Não há medidas específicas, mas uma boa alimentação e uma vida saudável são associadas a uma melhor resposta às infecções em geral.

16- Posso evitar a gripe tomando comprimido de alho ou vitamina C?
Não. Vários estudos não encontraram a relação entre o consumo de alho ou de vitamina C e proteção ou melhor prognóstico na gripe.

17- Pego o vírus beijando na boca? E no rosto?
Sim. O beijo na boca é uma forma de contágio imediata. A transmissão pelo beijo no rosto ocorre se a pessoas tocar a região beijada e, em seguida, tocar olhos, nariz ou boca.

 

GRÁVIDAS

18- Devo parar de trabalhar e usar transporte público?
De modo geral, grávidas devem evitar locais fechados e aglomerações. Caso seja possível, médicos recomendam parar de usar o transporte público e afastar-se do ambiente de trabalho, onde pode haver exposição a pessoas contaminadas.

19- Adianta ficar em casa?
Sim. Quanto menos a grávida se expuser a outras pessoas, melhor.

20- Posso tomar a vacina contra a gripe comum?
Sim. Grávidas podem e devem tomar, apesar de a vacina atual não proteger contra o vírus A(H1N1). Elas devem tomar porque costumam apresentar quadros mais graves também na gripe comum.

21- Posso tomar Tamiflu se estivar grávida?
Sim. Não há registros de efeitos negativos para o feto pelo uso de remédio. A decisão de iniciar o uso do remédio deve ser feita depois de um consenso entre médico e paciente para saber quais são que os benefícios superam os riscos.

22- Se tiver a doença, há risco para o bebê?
Pode haver, dependendo da época da gestação. Há risco de aborto espontâneo, e os quadros mais intensos da nova gripe têm acontecido no segundo e terceiro trimestre da gravidez. Não há ainda estudos sobre malformações fetais, mas, se a mãe tiver um parto prematuro, a criança tem menos chances de sobreviver.

23- A doença é mais severa em grávidas?
Sim. Durante a gravidez, a imunidade da mulher fica mais baixa. A maioria das grávidas que morreu ou apresentou quadro grave decorrente da gripe A(H1N1) no mundo estava no terceiro trimestre da gravidez.

24- Se estiver doente, posso amamentar?
Sim. O leite materno não transmite o vírus. O ideal é que a mãe use máscara e lave bem as mãos ao segurar o bebê, pois o espirro e a tosse poderão contaminar a criança. Não há tempo suficiente para a mãe produzir anticorpos, que seriam transmitidos à criança através do leite.

IDOSOS

25- Por que idosos estão morrendo menos com essa gripe?
Há duas possíveis explicações: a primeira é que os idosos estão menos expostos ao vírus, pois ficam mais recolhidos em casa. A segunda é o fato de eles teoricamente terem sido expostos ao longo da vida a variações do vírus H1N1 – dessa forma, algum resquício de imunidade estaria ajudando na redução do risco.

 

26- A doença neles é mais grave?
Em tese, sim. Porque o idoso tem o sistema imunológico mais frágil, além das doenças crônicas que podem favorecer o agravamento da doença.

27- O uso de outros remédios pode atrapalhar o tratamento?
Há a possibilidade de interação medicamentosa, mas isso não inviabiliza o tratamento, porque o remédio é ingerido por tempo curto.

 

CRIANÇAS

28- Por que a volta às aulas foi adiada para amanhã?
Porque o governo acredita que o pico de transmissão já terá diminuído devido ao aumento da temperatura. Isso faz com que as pessoas abram mais as janelas e o ar circule. Mas, alguns especialistas dizem que o adiamento tem pouco impacto em termos epidemiológicos.

29- O risco de contaminação é maior na escola?
Sim, da mesma forma que é maior em qualquer ambiente com aglomeração de pessoas. Crianças com qualquer tipo de resfriado ou gripe não devem ir para aula.

30- A doença é mais grave nas crianças?
O sistema imunológico é mais imaturo até dois anos de idade, o que aumenta o risco de agravamento dos sintomas e da evolução da doença.

31- Crianças podem tomar o Tamiflu?
Se tiverem indicação médica, deverão tomar o remédio, que é diluído em doses menores. O que não se deve é usá-lo de maneira indiscriminada.

 

OUTROS GRUPOS

32- A doença é mais grave entre os hipertensos e diabéticos?
Sim, doenças cardiovasculares aumentam as possibilidades de agravamento da doença. O diabético, por exemplo, tem a resposta imune diferenciada e, por isso, é mais sujeito a infecções ao longo da vida.

33- Eles devem fazer algo diferente do restante da população?
Não. Hipertensos e diabéticos devem agir com o mesmo cuidado que os outros.

O EXAME

34- Posso solicitar o exame na rede pública?
Não. No momento, pelo pequeno número de laboratórios capacitados para fazer o exame, tem sido recomendada a realização do teste apenas para pacientes internados, de grupo de risco ou com evolução grave da doença.

 

35- Consigo fazê-lo na rede privada?
Sim, mas apenas se houver sintomas graves e indicação médica, pois não há reagente para todos.

36- Quanto tempo demora para sair o resultado?
Depende da quantidade de exames. No Instituto Adolfo Lutz, um dos três laboratórios responsáveis pela realização dos exames no Brasil, demora, em média, 15 dias. Em laboratórios particulares, autorizados pelo Estado a fazer o exame, pode sair em 48 horas.

37- O plano de saúde cobre o exame?
Depende. A decisão varia de acordo com a operadora. É preciso consultar seu plano para se certificar se esse tipo de cobertura está incluída.

38- Se o exame der positivo, vou receber um tratamento diferente?
Depende. Está sendo preconizado o tratamento medicamentoso apenas para pacientes com a forma clinicamente intensa da doença. Em casos confirmados da gripe, mas com evolução clínica boa, provavelmente o remédio não será administrado.

O REMÉDIO

39- Posso tomar Tamiflu preventivamente?
Só em situações muito específicas, com indicação médica. Por exemplo: marido doente e grávida. Nesses casos, a medicação poderá ser receitada preventivamente para evitar que a gestante fique doente.

40- Quem deve tomar Tamiflu?
Pessoas com sintomas de gripe nas primeiras 48 horas, especialmente aquelas que se enquadram nos grupos de risco ou apresentam sinais de evolução grave, como falta de ar, e baixa pressão arterial.

41- Posso me curar sem tomar esse remédio?
Sim. Nem todos os casos da doença apresentam sintomas severos a ponto de ser necessário o uso do medicamento.

42- Adianta tomar esse remédio vários dias depois de estar gripado?
Não Estudos demonstram que a eficácia do Tamiflu após 48 horas do início da doença é muito baixa. Além disso, a carga viral diminui naturalmente.

43- Posso comprar Tamiflu na farmácia?
Não. A distribuição do medicamento é feita pelo Ministério da Saúde aos postos de distribuição e hospitais de referência.

44- Há outros remédios para essa gripe?
No Brasil, não. Existem o medicamento Relenza (remédio inalatório que tem o mecanismo de ação semelhante ao Tamiflu), mas ele não é comercializado no Brasil, embora tenha registro na Anvisa.

 

45- Esse remédio tem efeitos colaterais?
Sim. Os principais são náuseas, dor de cabeça, dor de estômago e diarréia. Não há relatos no Brasil de efeitos adversos graves.

46- Há remédios para todos no Brasil?
Não se sabe. O governo retirou o Tamiflu das farmácias e está com estoque de 9 milhões de medicamentos, além de ter encomendado mais 9 milhões de tratamentos. Neste momento, acredita-se que a quantidade é suficiente para atender os casos mais graves do Brasil.

A VACINA

47- A vacina comum protege contra a gripe A?
Não. A vacina contra a gripe comum não protege contra a gripe A, mas combate o vírus da gripe (incluindo o da gripe sazonal), que pode causar quadros graves em idosos e portadores de doenças crônicas.

48- Existe vacina específica para a nova gripe?
Ainda não, mas o Brasil já recebeu a matéria-prima necessária para produzir as vacinas. A fabricação deve começar em outubro, e a vacinação, no início do próximo ano.

49- Todo mundo será vacinado?
Provavelmente não. Tudo depende das doses disponíveis. Por recomendação da OMS, a prioridade serão os grupos de risco (gestantes e doentes crônicos) e os profissionais de saúde.

50- Poderei comprar a vacina na rede privada?
Ainda não se sabe. Provavelmente os primeiros lotes da vacina produzidos serão disponibilizados apenas aos governos federais.

Fontes:
Dr. Carlos Magno Fortaleza – chefe do Departamento de Doenças Tropicais da Unesp
Dr. Juvêncio Furtado – presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia
Dr. Jacyr Pasternak – infectologista do Hospital Albert Eisntein
Dr. Celso Granato – infectologista do Fleury Medicina e Saúde e da Unifesp

 

 

 

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